quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

35 - Névoa cor de pérola

            “Certo. Agora que nos contou sobre toda essa desgraça, o que faremos? Não consigo imaginar como poderíamos vencer Nabara, dracolichs, illithids, cultistas e toda aquela corja de coisas horrorosas que vimos nos últimos tempos”, disse Askáth.
            “Eu tenho isso”, respondeu Siana, “Garek preparou vários feitiços nestes pergaminhos aqui. Dêem uma olhada.”
            Curvaram-se mais sobre a mesa, onde a maga estendia alguns pergaminhos escritos em runas diversas. Ninguém pareceu entender muita coisa, exceto Navere, que reconheceu uma magia ou duas.
            “São feitiços muito poderosos, que podem nos dar uma chance. Não vou mentir para vocês, não vai ser nada fácil”, disse Phidain. O humor do halfling mudara completamente, se comparado ao que era quando sentou-se na taverna dos Amlugnehtar com Siana para começar a pesquisa com o grupo de heróis. Navere, por outro lado, lembra de Phidain como um bardo mais calado, pois desde a infância, quando se viu sob os cuidados de Phidain, notara que o bardo carregava um semblante sombrio grande parte das vezes. Depois de Navere sair da casa do mestre bardo, Phidain fora surpreendido por Siana, de espírito leve e determinado. A benevolência inerente a ela tornou Phidain menos amargo, mais comunicativo e, obviamente, um bardo de mais sucesso.
            Siana levantou-se e foi até o quarto. Não a viam, mas ouviram o som característico de uma tranca antiga sendo manipulada e destravada. Logo depois, o som de uma tampa de baú rangera. Alguns segundos separaram a abertura do som pesado da tampa se fechando novamente. Siana reapareceu na sala, carregando um pequeno orbe de brilho fraco, branco. Dentro das paredes de vidro circulares do orbe, uma névoa esbranquiçada podia ser vista dançando, como se feita de vapor. No entanto, ao contrário do vapor, a névoa parecia perolada, com pequenos pontos brilhantes. Navere ficou encantado pelo objeto. Ao pedir para tocá-lo, Siana não permitiu, dizendo que seria perigoso deixar aquele artefato ser tocado por mãos não treinadas na magia como as dela.
            “Estão prontos? É hora de partirmos. Iremos primeiro resgatar Desmond, depois seguiremos até Evernight.”, disse a maga.
            “Estamos. Vamos acabar logo com isso, quero sair desse inferno o mais rápido possível, filha.”, respondeu Randal. Siana levantou os olhos ao ouvir o mercenário se referindo a ela como filha, mas ele não pareceu estar ciente do termo que usara. Siana percebeu que não se importara e que de fato também enxergava Randal como uma figura paternal.
Ninguém mais falou nada. Siana decidiu iniciar o processo. Posicionou o orbe no centro da mesa, instruindo a todos que deveriam dar-se as mãos. Siana disse a Navere que segurasse em seu ombro. “Preparem-se. Provavelmente vamos atacá-los assim que os virmos. Temos o elemento surpresa em nossas mãos”, disse ela.
Observando o orbe, Siana concentrou-se e esticou sua mão direita e o tocou levemente. Dentro da esfera vítrea, a névoa condensou-se, exibindo a imagem difusa de Desmond sendo levado por cultistas ao longo de uma estrada.  O ladino era seguido de perto pela enorme figura de armadura que tinha invadido o abrigo onde estavam. Os outros cultistas seguiam atrás, a passos lentos e cadenciados. O grupo não parecia estar com pressa.
Alguns segundos depois, o orbe emitiu luz forte, capaz de atordoar a todos.
Todos, mesmo Siana, sofreram com o leve atordoamento que o teleporte costuma causar. Em algumas pessoas, a visão se torna um pouco turva, dificultando a recuperação da propriocepção. Finalmente, ao se reorientarem, perceberam que haviam sido transportados para a imediata frente do grupo de cultistas que levava Desmond.
 O espanto os congelou por alguns segundos, tornando Siana, um pouco mais experiente com teleportes e já recuperada do atordoamento, capaz de atacar de surpresa. Utilizando as mãos, colocou-as à frente do corpo  e produziu instantaneamente um leque de fogo que varreu todos eles, causando-lhes dano massivo. Desmond, mais experiente em batalhas e conhecedor da magia que Siana acabara de utilizar, aproveitou a surpresa dos captores para desviar. Não se machucou. Mesmo com as mãos amarradas, conseguira rolar e se posicionar atrás de um deles, fazendo-o servir como um escudo vivo.
O cultista e os dois mortos vivos lacaios caíram mortos instantaneamente, mas a armadura permaneceu intacta. Elevando as mãos gigantescas, empunhou a espada a posicionou diretamente no ângulo da cabeça de Siana, que já se preparava para conjurar outra magia. Antes que ele conseguisse baixar a arma e repartir sua cabeça ao meio, a maga, mais uma vez, estendeu as mãos. Desta vez, agarrou a armadura e liberou uma poderosa descarga elétrica. A figura pareceu titubear, derrubando a espada. O choque causara a hesitação necessária para que Phidain acertasse entre as placas de seu peito com uma adaga, fazendo com que a lâmina perfurasse o espaço entre as placas onde Phidain acreditava levar ao coração da criatura.
O enorme cavaleiro caiu de joelhos, colocando o peito estufado e metálico da armadura completa à altura exata dos olhos de Siana. Com a mão estendida, ainda sem demonstrar medo, a maga produziu um jato ácido, fazendo o peitoral da armadura derreter lentamente.  Quando o peitoral danificado deveria expor o usuário da armadura, nada apareceu.
A armadura desmontou completamente e parou de se mover. Desmond levantou e se dirigiu até eles.
“Vocês demoraram. Quase tive que matar todos eles sozinho.”
“Claro, você conseguiria.”, disse Askáth, sarcástico.
Desmond não respondeu. Apenas virou-se, indicando não-verbalmente as amarras que continham seus pulsos. Askáth cortou as cordas com uma adaga, libertando o outro ladino.
“Todos estão bem? Se estiverem, é hora de resgatar os Amlugnehtar”.
Mais uma vez, se juntaram em círculo ao redor do orbe que Siana carregava. Ela refez o ritual. Desta vez, o orbe mostrou não um pequeno grupo de pessoas, mas um lugar escuro e indistinguível.
            O clarão determinou o início e o fim da curtíssima viagem. Siana havia calculado que economizariam centenas de milhas desta forma, mesmo às custas de um artefato tão raro e de tão limitado uso. Nesta mesma hora, o orbe apagou-se. A névoa perolada dissipou-se por completo e o objeto tão obviamente mágico há poucos segundos, tornara-se na mais mundana das esferas de vidro.  
            A sala onde tinham ido parar parecia completamente vazia. Nenhum som provindo de monstros ou humanos podia ser ouvido, e eles tinham certeza de que estavam absolutamente sozinhos. A própria certeza foi questionada por Phidain, internamente, mas ele decidiu não compartilhar a dúvida com os companheiros de viagem.
            “Não precisaremos mais disso”, disse ela, largando o orbe, que atingiu de pronto o chão no meio do círculo que formavam. O som do vidro se estilhaçando não foi tão alto quanto imaginavam, mas ecoou nas galerias escuras e úmidas para onde tinham sido transportados. “Estranho... devíamos ter saído exatamente à frente dos Amlugnehtar sequestrados. ”          
            Som de líquidos gotejantes, como em uma galeria de esgotos desativada podia ser ouvido, ecoando indistintamente por todas as paredes. A sala toda era construída em pedra, cheia de limo e sem decorações. Parecia absolutamente vazia, até onde conseguiam enxergar. O pé direito era baixo. Com a exceção de Phidain, todos os outros conseguiam encostar as palmas das mãos com facilidade no teto apenas levantando os braços.
            Durante algum tempo, eles vasculharam a sala, à procura de saídas, itens, pistas. O ambiente muito escuro não facilitava a procura. Desmond, Askáth e mesmo Phidain pareciam intrigados com a perfeição da vedação da sala. Mais alguns minutos se passaram até que Thaal pisasse, sem querer, num dos blocos que compunha o chão.
            À frente deles, uma parte da parede deslizou. Os outros se viraram ao som pesado do arrastar da porta secreta. Um a um, cautelosamente, avançaram para a sala seguinte, intrigados pela obscuridade e acesso quase impossível. Quando Randal, o último a entrar na sala teve a chance de observar com clareza o que havia dentro da sala secreta, a respiração dele cessou por completo por alguns segundos. Os outros já estavam absolutamente imóveis pela surpresa. Nenhum deles percebeu que Siana fora a primeira a se recuperar do choque, e que a maneira que conseguiu para lidar com a visão que tivera fora curvar-se e vomitar profusamente, entre lágrimas de medo, repulsa e choque.
            Ao longo da parede lateral da sala fracamente iluminada por braseiros aos pés de quatro colunas centrais, quatro pessoas jaziam acorrentadas. Thaal soltou seu peso em cima de seus joelhos e abaixou a cabeça, pondo-se a rezar. Randal agachou-se ao lado de Siana. Askáth permaneceu imóvel, enquanto Desmond iniciara uma lenta marcha em direção aos companheiros, para que pudesse observá-los de perto. Caminhou até a feiticeira, a primeira, no canto da parede. A mão de Desmond tampava sua boca, como em um estado de espanto constante.
            Nyx estava nua, seu corpo, outrora bem formado e de beleza excepcional, demonstrava uma palidez mortiça sob inúmeras manchas de sangue. Uma de suas pernas era branca como o resto do corpo. A outra, vermelha como o sangue. Embaixo de seus pés, pendentes a mais de trinta centímetros do solo, sangrentos pedaços de carne se amontoavam entre poças de sangue coagulado. A carne de sua coxa e perna estava exposta, e o rosto da feiticeira, desacordada, transmitia ter sentido a mais profunda dor antes de perder a consciência.
            Ao lado da feiticeira, pendurado pelos pulsos, estava Orsin, o anão. Ele parecia menos ferido do que Nyx. Ao contrário de como Desmond se lembrava, Orsin não usava armadura, apenas uma calça rasgada, de tecido puído. Em seu peito, alguém havia cravado o contorno de um dragão. A mutilação parecia recente; do ferimento, o sangue ainda escorria fraco, mas constante.  Orsin estava consciente, ofegante. Seus olhos encontraram os de Desmond, e demonstravam uma profunda tristeza ao lado da dor imensa. Ele virou a cabeça, apontando para Phalos e Sonam, ao lado.
            Em terceiro havia o draconato, ainda acordado. Em vez de seus habituais enfeites feitos de partes dos monstros que ele derrotara, Desmond viu que ele tinha em seu pescoço um colar feito de dentes afiados e sangrentos, arrancados à força. Sua cabeça pendia para a frente, com seu longo focinho dracônico tocando seu peito. Os olhos estavam fechados, mas a boca entreaberta deixava sangue viscoso escorrer pelo peito e pingar no chão. Desmond percebeu de onde tinham saído os dentes que compunham o colar no pescoço do amigo.
            Ainda perplexo pela crueldade irônica cometida com Phalos, o ladino se sentia próximo a perder o controle de seu estômago, assim como Siana. Ao caminhar mais um pouco e observar Sonam, seu fôlego perdeu-se, e seus olhos finalmente cederam. Desmond gritou, cobrindo o rosto com as mãos e deixando que lágrimas escorressem profusamente de seus olhos.
            Sonam, o monge, havia sido um guerreiro implacável. Suas sequências de golpes mortais foram decisivas em diversas batalhas. Desmond devia a Sonam a vida diversas vezes. Por lutar com suas mãos e com elas ter tirado a vida de Severin, o líder do Culto do Dragão na época em que impediram o retorno de Tiamat, aparentemente a tortura vingativa tinha sido mais cruel com ele do que com os outros.
            Sonam pendia preso de braços abertos, como em uma crucificação com correntes. Sua cabeça também apontava para baixo, imóvel, indicando que ele provavelmente estava inconsciente. Seu corpo não trazia nenhum dano, ao contrário de seus companheiros, sua tortura tinha sido localizada.

            Cada uma de suas mãos, em concha, trazia em seu interior um dos olhos do monge. 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

34 - Nabara e o Dragão Vermelho

Observando o mapa, eles delinearam um plano intrincado, que envolvia o término do treinamento de Siana, o reencontro com Askáth, Navere, Thaal, Randal e Desmond, o resgate dos Amlugnehtar e a aniquilação daquela Dracolich. O monstro era comandado diretamente por Nabara, uma elfa maga que fora corrompida pelo culto alguns anos depois do impedimento da volta de Tiamat.
Em um diário que os batedores recuperaram ao invadir as dependências da líder, anotações evidenciaram o passado da elfa. Nabara perdera sua vila inteira durante os ataques do culto às florestas élficas, mas ainda assim, fascinara-se pelas artes ocultas. Depois de se reerguer e terminar seus treinamentos, a elfa procurou os poucos membros que restavam ainda vivos e iniciou o processo de ressurreição do Culto, levando-os de volta ao objetivo inicial da organização: a criação e manipulação das forças da morte, transformando dragões em Dracolichs, a versão profana e morta viva das criaturas lendárias.
Os batedores escreveram algumas notas sobre a natureza e aparência de Nabara. Descreveram-na como uma elfa de beleza surpreendente, que emana a maldade como perfume. Suas roupas são negras e ela é mestra das artes necromânticas. Sempre está rodeada de um esquadrão de zumbis, esqueletos, fantasmas e outros mortos vivos.
Durante o processo de reconhecimento, os batedores também presenciaram o sacrifício ritual de um enorme dragão vermelho. As anotações sobre o procedimento foram feitas com uma caligrafia corrida, mas eram eloquentes e bem construídas, como se vindas de uma mente que carregava as imagens do que vira detalhadamente tatuadas na memória. Os espiões responsáveis por esta missão foram capazes de esconder suas anotações em um local pré-determinado, mas foram capturados antes que pudessem tentar trazê-las de volta eles mesmos.

Deitado no chão de pedra, o dragão emitia urros que ecoavam a quilômetros de distância, mas não parecia lutar. De alguma forma, parecia consentir a morte lenta e dolorosa que lhe era proporcionada. Pouco a pouco, o sangue lhe foi drenado. As patas estremeciam e seus olhos tremiam descontroladamente perto do final. À frente do enorme corpo moribundo do dragão, um grande rubi foi colocado. Com uma espada prateada ritualística o tórax do dragão agonizante foi aberto, expondo suas costelas. A pele foi afastada. A caixa torácica expandia-se rapidamente, em respirações curtas e superficiais. Sob as costelas, o coração gigantesco fumegava e batia fracamente, emanando uma luz brasil, avermelhada e quente.
A olhos vistos, o coração parou de bater e uma energia clara e brilhante foi emitida do órgão morto.  O rubi foi colocado na direção da energia e a absorveu completamente, brilhando e parecendo pulsar. O brilho esvaneceu, e a pedra foi colocada em uma caixa de madeira escura e ossos, trabalhada em arte muito fina. A caixa foi levada, será objeto de nossa próxima busca, assim que o ritual acabar. Com o corpo do dragão, outro ritual foi iniciado. Sete necromantes, incluindo Nabara, conjuraram grandes feixes de energia necrótica que penetraram na carne do dragão abatido em sete pontos distintos. O raio que saía das mãos de Nabara atingia o centro da testa do dragão, iluminando as feições monstruosas com uma luz escura e arroxeada.
Por alguns minutos os feixes foram sustentados pelos magos. O dragão permaneceu imóvel, inegavelmente morto. Então, abriu os olhos subitamente, e levantou cambaleante. Suas pernas falhavam como as de um cavalo recém-nascido, mas ele persistiu e conseguiu firmar seu corpo sobre os membros mortos. A caixa torácica continuava exposta, com seu coração apagado e inerte do lado de dentro. Uma grande aba de pele pendia flácida do peito. Os pulmões não se expandiam, mas mesmo assim ao se firmar, o dragão contraiu o tórax e abriu a boca.
Um gigantesco e poderoso urro emanou de sua bocarra, seguido por uma enorme chama. O teto fora atingido e enegreceu imediatamente sob a força do sopro do dragão vermelho morto. Os magos e cultistas se afastaram. O dragão, lentamente, se pôs a andar em direção a uma larga passagem em um dos lados do ambiente. Nabara exibia um sorriso triunfante enquanto caminhava seguindo o dragão pela mesma passagem.

R.

Apenas as notas foram encontradas pela expedição que foi enviada para resgatá-los. Perto do local combinado para que escondessem provas, uma pedra ilusória colocada estrategicamente em um canto pouco frequentado, apenas algumas manchas de sangue seco indicavam o provável destino desfavorável do grupo anterior. O grupo de resgate enviou um de seus membros de volta, com a informação do provável desaparecimento e morte do grupo anterior, as notas e a promessa de que fariam de tudo para encontrá-los. No entanto, este membro desgarrado fora o único que retornara. O grupo enviado para o resgate também não voltou, o que fez com que também fossem declarados como mortos.
As notas foram de suma importância para a organização da emboscada que planejavam, mas  Garek e a Irmandade Arcana decidiram que o trabalho dos grupos de batedores e de resgate eram arriscados demais e que não mandariam novas missões, que trabalhariam com o que tinham.
Agora que sabiam sobre Nabara e a criação de dracolichs, o plano estava quase completo. Siana completou seu treinamento, tornando-se oficialmente maga. Especializou-se nas artes da divinação, sendo capaz de prever eventos futuros simples, mas com precisão. Através de seus recém adquiridos poderes, Siana determinou com facilidade a data de chegada dos amigos, além do ponto onde Phidain deveria interceptá-los.
Garek e Siana concordavam que Phidain deveria informá-los de toda a verdade que escondera até aquele momento, porque mesmo fragilizado, aquele grupo representava a chance que teriam de salvar os Amlugnehtar e cessar permanentemente as atividades do Culto do Dragão.
Então, quando as visões de Siana e Garek indicaram que Desmond havia sido levado de fato, como a jovem maga previra, Phidain fora enviado para encontrar o antigo pupilo, Navere, e seus companheiros de viagem.
Phidain não estava inteiramente confortável com a ideia de expor seus mais profundos e sombrios erros do passado, mas a perspectiva de ser perdoado por Navere lhe proporcionava esperança, como um poço de água límpida no meio de um pântano lodoso. O bardo adentrara Shadowfell por outra passagem, menor e muito menos utilizada do que a da biblioteca, por onde o grupo de viajantes chegara ou a da cabana onde esperaria Siana. A passagem que utilizara era apenas uma falha entre duas rochas que compunham a base de uma colina, quase impossível de ser notada por alguém que não a procurasse por ali.
            O bardo caminhara por alguns dias, sempre apenas algumas horas atrás dos outros. Seus passos menores tornavam alcançá-los um trabalho muito mais complexo do que para as outras pessoas, e ele só conseguia diminuir a distância entre eles durante a noite, quando o grupo parava para descansar e Phidain permanecia marchando.
            Em uma das noites de marcha, Phidain fora surpreendido por uma luminosidade característica das fogueiras vindo de trás dele na estrada. Sabendo que o grupo que seguia estava à sua frente, decidira investigar a presença inesperada de outro grupo de viajantes. 
            Meia hora depois, após avançar lenta e cuidadosamente em direção ao acampamento simples, Phidain conseguira se aproximar o suficiente para notar que o pequeno agrupamento de pessoas era composto por cultistas de aparência cansada, que carregavam um enorme saco de pano, colocado dentro de uma carroça de mão. A carroça estava apoiada no chão, e o saco parecia pesado e bem fechado. Observando mais de perto, conseguiu ouvir a conversa que se seguia, repleta de banalidades sobre o clima, o cansaço, a distância até o destino. Em nenhum momento a natureza da carga fora mencionada, e Phidain começava a achar que sua investigação tinha sido absolutamente frustrada.

            As mãos dos cultistas estavam cheias de bolhas e expondo feridas molhadas, que eles comparavam à parca luz da fogueira, entre as mordidas que davam em pedaços de carne seca. Phidain se conformara que a carga era provavelmente apenas de suprimentos básicos e começava a se afastar quando, de súbito, um portal abriu-se a uma distância muito perigosa deles.
            Do portal, uma elfa vestida com robes negros muito bem cortados saiu, exibindo longos cabelos negros, presos em uma trança atrás da cabeça que pendia quase até o joelho. De costas para Phidain, ele não conseguia ver seu rosto, mas a ponta de suas orelhas muito agudas evidenciava-se sob o penteado, muito alvas. A trança era ornamentada com fivelas equidistantes decoradas com pequenos crânios esculpidos em madrepérola. O perfume que emanava do corpo da elfa, perigosamente próxima de Phidain, remetia à papoulas. Apesar da aparência bela e elegante, à primeira sílaba de suas palavras dirigidas aos cultitas, Phidain percebeu que apenas fel corria pelas veias da elfa.
            “Mestra Nabara... nós... nós acreditávamos que nos interceptaria alguns dias atrás... nós... nós não conseguiríamos andar por mais muito tempo...”
            “Está me repreendendo, lacaio?”, respondeu Nabara. A melodia de sua voz era tão lúgubre como sinos que anunciavam a morte iminente de uma cidade inteira.
            “Não, mestra, mas é claro que não, jamais...”
            “Eu sabia exatamente onde estavam. Só queria que se cansassem mais um pouco. Esta carga é necessária apenas para daqui a alguns dias, e eu estava... monitorando o empenho de vocês. Agora vamos, vamos transportar este pequeno pacote para Evernight. “
            Sem dizer mais nada, mas expressando alívio, os cultistas, obviamente de patente baixa na hierarquia do Culto, auxiliaram Nabara a apoiar a carga sobre um disco que ela conjurara próximo ao chão. Enquanto tentavam retirar o grande saco de cima da carroça de mão, Phidain teve um vislumbre do que estava ali dentro. A forma era de um baú, e a cor era metálica, com ornamentos intrincados. O objeto parecia muito pesado, mas Nabara não encostou na carga em nenhum momento. Os cultistas fizeram muita força para colocar o baú sobre o disco, sempre olhando esperançosamente para a elfa, como cães perdidos.
            “Espero que façam boa viagem”, disse ela, atravessando o portal com o disco às suas costas. “Nossos magos nos informaram que nos próximos dois meses a estrada estará particularmente complexa. Eu poderia levá-los comigo pelo portal, mas estou um pouco cansada para isto agora.”
            Sem olhar para trás, Nabara terminou de transportar a carga no disco e fechou o portal, antes mesmo que os cultistas criassem coragem para contestar o veredito.

            Os cultistas se entreolharam, demonstrando apenas desespero nos olhares. Com as costas arqueadas, características do medo e cansaço, sentaram-se novamente e terminaram de comer em silêncio. Phidain, consciente de que testemunhara uma pequena amostra do que os seguidores do Culto sofriam sob o comando de Nabara, decidiu voltar para o ponto de onde se desviara e retomar a caminhada.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

33 - Existe um Plano

Curiosamente, Navere, Randal, Askáth e Thaal demoraram alguns segundos para manifestarem reação. Entretanto, uma a uma, bocas foram se abrindo, olhos se arregalando e rostos foram se deformando em esgares de puro medo.
            Siana manteve sua expressão impassível. Sua missão era transmitir calma, controle e o plano que ela, Phidain e Garek tinham concebido com bastante calma.
            Sabendo que os Amlugnehtar estavam presos em Evernight e que era lá que o Culto estava arrebanhando seus prisioneiros e recursos materiais, os três sabiam que tinham algum tempo para planejar o ataque perfeito. Os anacronismos que os teleportes entre Shadowfell e Faerûn causavam poderiam funcionar a favor deles, e Garek os havia aconselhado fortemente a utilizar esta característica como base para o plano.
            O Culto tinha membros que não haviam sido levados para Shadowfell, como os Illithids. Além disso, diversas facções, como a antiga guilda de Phidain, apenas serviam como alavanca para a arrecadação de recursos. O transporte dos bens e prisioneiros era feito pelo mesmo grupo de pessoas para Evernight, e o excesso de pressão nas fendas das sombras acabava por distorcer a passagem de tempo no plano inteiro. Isso era de fato uma vantagem para o Culto, porque eles teriam que gastar muito menos recursos para a manutenção dos prisioneiros e forças militares em Shadowfell do que se esta organização fosse feita em Faerûn.
            Em Faerûn, os ataques ainda eram esporádicos e discretos, quase imperceptíveis. Nos tempos em que os Amlugnehtar lutaram contra a volta de Tiamat, os ataques eram muito mais ostensivos. Por causa da discrição estrategicamente planejada e igualmente derivada das forças reduzidas do Culto, o fluxo de recursos para Shadowfell era escasso e esporádico; no entanto, por causa da divergência no tempo, em Shadowfell recebiam-se todos os dias diversos carregamentos pequenos de pessoas para sacrifícios, ouro, reagentes mágicos e objetos de valor.
            Pensando nisso, o treinamento de Siana foi feito da forma mais rápida possível, calculando-se que apenas alguns dias seriam gastos em Shadowfell, fazendo com que pouco avanço pudesse haver do outro lado. Mesmo assim, ela ainda teve quase um ano para conseguir se transformar em uma maga eficiente o suficiente para carregar a responsabilidade de substituir Garek Whitebeard em uma batalha tão difícil.
            Garek fora questionado no que tangia a escolha de Siana como enviada. Ele mesmo havia duvidado da capacidade da jovem maga de conduzir a dificílima missão de forma eficiente por algumas vezes, mas logo fora lembrado por Phidain que ela era a escolha mais sábia. Siana era nova, inexperiente. Apesar disso era muito inteligente, havia superado todas as expectativas durante seu treinamento. Era uma jovem centrada, correta e capaz de entregar sua própria vida para que a missão fosse cumprida, qualidade raramente encontrada entre magos. Além disso era uma recruta relativamente nova na escola, recém-acolhida pela Irmandade Arcana. E a Irmandade, apesar de questionar Garek, compreendia que Siana era apenas uma aprendiz e que sua morte não representaria nenhuma perda significativa para a escola, para a Irmandade ou para os magos no geral.
            Siana fora informada ainda na metade de seu treinamento que seria a enviada da Irmandade para Shadowfell. A partir dali seus estudos mudaram um pouco e ela recebeu a orientação de focar-se em aprender a utilizar os pergaminhos que estavam sendo produzidos por membros ilustres da Irmandade, como Garek. Nestes pergaminhos, eles desenhavam belas runas antigas. Quando lidas em voz alta, eram capazes de produzir feitiços fortíssimos, muito mais poderosos do que Siana poderia imaginar. Ela não seria a responsável por conjurá-los, apenas por conduzi-los à realidade. Ainda assim, a Siana cabia escolher a hora e local de realizar tais magias, e principalmente para isso era treinada intensivamente.   
            Siana também recebera de Phidain e Garek alguns mapas desenhados por batedores enviados a Shadowfell, que representavam em linhas tremidas as dependências da sede em Evernight.
            Evernight era uma cidade decrépita, entristecida, cinzenta, que se comportava como uma sátira trágica da cidade de Neverwinter em Faerûn. A cidade original é uma grande metrópole, um importante centro comercial e cultural do continente. Concentra muito do poder político, mágico e financeiro de Faerûn. Evernight, por outro lado, é como uma versão enegrecida, com paredes perfuradas pela podridão. Toda a prosperidade de Neverwinter é refletida pela sua exata contraparte, a desolação. Onde na cidade em Faerûn há um mercado vivaz e movimentado, Evernight exibe uma sequência pós apocalíptica de esqueletos de barracas, com restos de lonas e tendas tão negras quanto o carvão. Em vez de mercadores falantes, mortos vivos rondam o mercado, sem rumo, com pedaços de suas faces pendendo flácidos, exibindo ossos que se esfarelam por baixo da carne podre.
            Entre todo o cenário cataclísmico da enorme cidade de Evernight, o Culto tomou parte do castelo sombrio para si. Mais ou menos no centro da cidade, uma grande construção avançava em direção ao céu tempestuoso. Em seus porões e duas de suas torres mais externas, o Culto amontoava seus prisioneiros como gado confinado. Algumas salas comportavam uma quantidade sempre crescente de tesouro, que permanecia guardado por dois ou mais cultistas que se revezavam em turnos.
            Incrivelmente, os batedores puderam desenhar com detalhes os corredores utilizados pelo Culto, indicando em cada marcação de porta o propósito da sala que a respectiva porta antecedia. Através de uma sequência de missões complexas e muito cuidadosas, o mapa foi sendo progressivamente acrescido de informações, tornando o planejamento da missão mais exato. Os batedores eram, no geral, membros de uma guilda de ladrões e espiões. Também tinham a ajuda, ironicamente, dos Zhentarim.
            Então, Garek Whitebeard, Phidain e Siana tinham os mapas estendidos em uma mesa de carvalho antigo, muito grande, numa sala muito bem iluminada com globos de luz eterna e mágica. Com um dos dedos com nós acentuados e muitas manchas e rugas, Garek apontou para um salão grande, subterrâneo, de contornos irregulares. No centro dele, havia uma marcação circular, com a legenda sobrescrita:
Dracolich

Aquela indicação que parecia tão pequena no mapa, na realidade representava a preocupação mais real de todos eles. 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

32 - Pão, Queijo e Lareira

Apenas alguns dias tinham se passado desde a última vez que viram Siana no templo. Mesmo assim, ela parecia mais velha, mudada. Vestia robes diferentes e amarrava seu cabelo para trás, deixando a parte mais inferior solta. Parecia ter o olhar mais sereno, complexo.
“Mas... Siana... achamos que você tinha morrido!”, disse Navere, abraçando-a. A expressão cinzenta que ele carregara no rosto desde a revelação de Phidain sumiu por alguns instantes ao ver a meia elfa, fazendo os outros se animarem com a possibilidade do bardo se recuperar do choque.
“Não, não morri. Mas por que acharam que eu tivesse morrido? Eu só... fui levada de lá.”
“Aquilo tudo desabou e fomos emboscados por todo o tipo de criatura ao sairmos de lá”, respondeu Askáth. “Procuramos você até que a estrutura começou a ruir. Como foi que saiu de lá?”
“Eu a retirei dali por teleporte”. Inesperadamente, foi Phidain quem respondeu. “Podemos conversar lá dentro? Aqui está frio demais.”
Todos entraram, em fila, na cabana. Havia comida quente, ensopado de carne e pães frescos, colocados na mesa com seis lugares. O ambiente tinha luzes mágicas flutuantes, mas a lareira estava acesa. De alguma forma, o fogo conseguira sobrepujar o ar gelado e pesado de Shadowfell, deixando a sala quente e aconchegante.
Durante algumas horas eles sentaram e conversaram. Phidain garantiu-lhes que não perderiam os sequestradores do Culto de vista e que poderiam dispor daquele tempo, e que Desmond ainda estaria vivo e inteiro quando o encontrassem.
Pelas horas que a refeição tomou e mais muitas que invadiram a noite, Siana discorreu sobre todas as dúvidas que pairavam entre eles. Explicou que Phidain a havia retirado por teleporte de lá, e a levado para um mago da Irmandade Arcana, Garek Whitebeard. Garek, a pedido de Phidain, havia preparado um treinamento intensivo sobre magia arcana, finalmente tornando Siana uma maga. Seus olhos transmitiam orgulho mesclado com preocupação.
“Eu... eu acho que Phidain e Garek precisavam que eu aprendesse a magia. Acho que o que enfrentaremos consumirá todo o poder que possamos produzir. Infelizmente, Garek está velho demais para lutar conosco, mas ele me armou de conhecimento e artefatos mágicos.”
Siana continuou, dizendo que Phidain havia contado toda a verdade para ela. Aparentemente, Phidain havia feito Navere e ela acreditarem que a dívida era com os Zhentarim, já que a ideia de illithids e membros do culto estarem chantageando o mestre deles era muito pior. A ideia dos Zhentarim os manteria ocupados, longe das garras do Culto. Apesar disso, os illithids decidiram atacar Phidain em seu ponto fraco, as pessoas que ele podia chamar de família. Navere andava distante, mas Phidain, obviamente, o tinha como filho. Siana tomou a mão de Navere entre as suas, fazendo uma carícia amigável. O bardo abaixou a cabeça e se permitiu derramar mais algumas lágrimas. Phidain não falou nada e permaneceu de cabeça baixa e olhos tristonhos.
Siana ainda explicou que eles vieram para Shadowfell através de uma fenda na sombra, a mesma que tinham naquela cabana, num canto. Os múltiplos teleportes e viagens fizeram com que para eles o tempo passasse de forma um pouco diferente. Para eles, não viam Siana há alguns dias. Para Siana, quase um ano havia se passado.
Ela também contou que soube do desaparecimento dos Amlugnehtar e de Desmond, e que ela e Phidain haviam concebido um plano para resgatar a todos. Aquela era uma cabana estrategicamente posicionada, que servia como transporte e base para várias incursões conduzidas pela Irmandade Arcana para Shadowfell ao longo dos anos.
Quando o ar ainda mais gelado da madrugada permeava através das frestas das janelas, perceberam que deveriam dar o dia como encerrado. Descansaram em camas preparadas por Siana antes que chegassem à cabana.
No dia seguinte, ao acordarem, Siana e Phidain já haviam preparado a mesa para o café da manhã. Serviram leite, presunto, pães, ovos cozidos e mel. Mesmo surpresos com a mesa farta mais uma vez, eles ainda estavam muito desconfiados da súbita aparição de Siana e de Phidain. Percebendo a insegurança que pairava entre Askáth, Randal, Navere e Thaal, Siana interveio, com voz doce.
“Sei que vocês não estão se sentindo bem com tudo isso. Mas posso assegurar a vocês todos que Phidain teve as melhores intenções desde o começo, desde que se desligou do Culto. Navere... você é tudo para ele. Quando você saiu da casa de Phidain, pouco antes de eu chegar, ele ficou muito triste... você é um filho. Você é o filho que ele nunca teve. E eu... eu sou uma aprendiz que duvidou de seu mestre, apenas para que ele provasse suas boas inteções o tempo todo.”
“Você precisa aceitar que isso é muito difícil para nós”, disse Navere. “Principalmente para mim... você não imagina como é saber que seu mestre mentiu sobre tudo, sobre toda a sua vida, porque matou seus pais...”
“Navere... por favor, me perdoe... você é a razão de eu ter fugido, a razão de eu ter desertado e traído o Culto. Eu não era bom antes disso, eu era um assassino... você me trouxe à vida, você me mostrou que eu poderia ser diferente!”, disse Phidain, em tom entristecido.
Navere olhou para os olhos de Phidain pela primeira vez. Não respondeu, mas Phidain achou que ele parecia um pouco mais propenso a perdoá-lo num futuro próximo.
“Nós precisamos seguir viagem”, disse Siana, enquanto acomodava uma grossa fatia de queijo entre dois pedaços de pão fresco. “A parte boa é que temos tempo. Nós não seguiremos pela estrada.”
“Qual é a parte ruim?”, perguntou Askáth, desconfiado do tom dela.
“Teleportaremos... e para onde vamos, as coisas não andam bem. Sei que estamos procurando Desmond e os Amlugnehtar, certo?”
“Certo...”, respondeu Randal, incerto. Ele não falava já há algum tempo.
“Nós precisamos que esteja tudo certo entre nós. Passaremos alguns dias mais por aqui, e precisamos organizar um plano de ação. Nós sabemos o que encontraremos por lá”, disse Siana.
“E o que exige tanta preparação?”, perguntou Navere.

“Dracolichs.”

31 - Phidain e seu Filho

Internamente, Navere não entendeu as próprias reações. Apesar de estar enraivecido pelas atitudes de Phidain, toda a história que dividiam fez com que seu coração se sentisse acolhido de alguma forma. Seu rosto não permitiu o sorriso, mas ele ficou feliz que a noite escura escondeu o brilho em seus olhos.
            “Olá, Navere. Olá, pessoal.”
            “Isso está ficando muito estranho”, disse Askáth. “Como você veio parar aqui neste fim de mundo?”
            “Este não é o fim do mundo, ladino... é apenas outro.”
            Eles ficaram em silêncio com a resposta do bardo. Ele se aproximou mais, se fazendo mais visível à luz fraca da fogueira. Largou a bolsa no chão e sentou-se, infiltrando-se na roda.
            “Eu... acho que vocês devem ter muitas perguntas”, afirmou Phidain, um pouco inseguro. “Estou pronto para responder a todas, desde que sigamos viagem assim que o dia nascer.”
            “Viagem? Você está louco? Depois de tudo o que aconteceu, o que faria com que permitíssemos que viajasse conosco?”, perguntou Askáth, um pouco mais sério.
            “Posso explicar tudo o que aconteceu, se vocês me permitirem.”
            “Pois comece do começo, Phidain.”, falou Thaal, com o rosto sério e a voz profunda.
            “Eu nunca quis colocar vocês em risco. Foi tudo por causa... de um erro muito grave que cometi.”, começou ele, respirando fundo. “Eu me aliei a pessoas erradas no passado, bem antes do Culto do Dragão se tornar o que virou. Eu era um ladino, como você, Askáth. E modéstia à parte, eu era muito bom.”
            O clima de espanto entre eles foi quase palpável.
            “Então, o líder da guilda resolveu nos afiliar ao Culto. Eu não queria ir, eu juro para vocês que eu não queria. Um dia, me mandaram matar mais alguns desertores. Vejam, eu era um assassino, e eu era muito bom. Por favor... por favor me perdoem...”, disse Phidain numa voz tremida.
            “Continue”, respondeu Navere, com a voz seca.
            “Então, depois dessa missão eu... eu me arrependi de tudo. Percebi que o Culto não poderia ser bom e resolvi fugir. Levei comigo o filho dos dois que matei, morto, nos meus braços. Ele morreu por engano... não sabia que tinha uma criança lá...”
            “Por que você levou o corpo?”, perguntou Askáth.
            “Porque não conseguiria dormir nunca mais se não tentasse. A morte daquele menino foi causada por uma magia que o próprio pai dele conjurou, mas que estava destinada a mim, que os atacava sob seu próprio teto. Eu sou um monstro, um monstro...”. Phidain parecia estar perdido em remorso. Seus olhos marejados olharam diretamente para Navere. “Levei o menino para um templo, onde me disseram que uma pequena fortuna era necessária para revivê-lo, mas que seria possível. Sabia exatamente onde encontrar este dinheiro. Então, fui até a guilda novamente, levando as cabeças dos pais do garoto. Voltei até a casa deles para decepá-las, eu... eu precisava de uma prova...”. Phidain desabou em lágrimas. Não parecia capaz de continuar.
            “Por favor, continue. Precisamos saber. Temos esse direito”, disse Thaal.
            “Eu demonstrei que havia cumprido a missão. Na sala do tesouro, matei os dois guardas que contavam o dinheiro que a guilda estava juntando para o Culto e roubei tudo o que podia. Saí dali o mais rápido que pude, levei as moedas ao templo e o garoto foi revivido. ”, continuou Phidain, tentando se acalmar.”
            “O que você fez com o menino? Para onde ele foi, depois que você matou seus pais e decepou suas cabeças?”, perguntou Navere. Os olhos de Phidain demonstraram dor profunda, principalmente pela pergunta ter vindo de Navere.
            “Ele... não se lembrava de nada... então eu... eu... menti para ele. Contei que ele havia batido a cabeça ao tentar me roubar. Disse que... disse que eu o perdoava e que iria ensiná-lo a ser uma pessoa melhor. Disse que tinha o ouvido cantar e sua voz era linda.”
            Navere parecia profundamente estarrecido. Não esperava de forma alguma que a história de Phidain fosse se revelar desta forma. Não achava que sua vida tivesse sido diferente do que imaginava, um menino de rua abandonado pela mãe prostituta, que vivia fazendo pequenos truques, furtos e traquinagens.
            “Phidain...”, foi tudo o que conseguiu dizer, antes que suas pernas o fizessem se levantar subitamente. Como se não controlasse sua linguagem corporal, levou às mãos à boca e saiu da roda da fogueira a passos largos.
            “Espere, Navere... me perdoe, me perdoe!”, gritou Phidain, se levantando e tentando seguir o bardo. Thaal o segurou pelo braço e o fez sentar novamente.
            “Dê um tempo a ele. Sua história foi demais para ele, e quase para nós também. Prossiga. Dê a Navere tempo para que compreenda a dimensão de tudo o que você falou.”
            “Daquele dia em diante, me dediquei apenas à música, que sempre fora minha paixão, mesmo nos tempos da ladinagem. Desenvolvi a magia e me tornei um bardo profissional. Por medo que Navere se tornasse o que fui, o levei junto para a música e o treinei o melhor que pude. Satisfiz com mentiras a necessidade de conhecimento sobre seu próprio passado, dizendo que o criava por pena, que ele não tinha pais, que tinha sido abandonado. Jamais... jamais poderia assumir que eu tinha causado a morte daquele casal que apenas havia percebido a verdadeira face do Culto e tentava fugir para proteger a cria.” O bardo parecia cheio de pesar, falava baixo. Sua voz fina e anasalada de halfling, normalmente carregada de alegria, não remetia ao bardo que conheceram. “Depois de alguns anos, encontrei Siana e a tomei como aprendiz da mesma forma.”
            “Certo. Linda história. E os Amlugnehtar? Nós sabemos que a culpa foi sua. Desmond achou o pergaminho com as suas ordens na sua casa, quando foi confrontá-lo. Ele nos mostrou.”, disse Askáth, firme e apressadamente.
            “Eu não sei... eu estava sendo chantageado pelos Illithids, que descobriram meu paradeiro e ameaçaram contar para o remanescente do Culto sobre meu roubo e deserção. Consegui me safar por algum tempo das demandas deles, mas acabaram por sequestrar Navere e Siana e tive que cumprir o que pediram. A única coisa que me pediram foi para plantar uma pedra num canto específico da Taverna. Se eu fizesse isso, poderia buscar meus pupilos. E foi assim que eu os encontrei, quase mortos, sendo sugados pelo Illithid que matei. Ouvi vocês chegando e saí, com medo de ser descoberto. Esperei escondido do lado de fora, até que vocês saíram com Navere e Siana carregados.”
            “Mas ONDE ESTÃO ELES?!”, exaltou-se Askáth. “ESTOU CANSADO DESSE SEU FALATÓRIO!”, continuou. Perdemos Siana, Desmond e todos os Amlugnehtar por sua culpa!
            “Eu não sei.”
            Desta vez, foi Askáth quem levantou e pôs-se a caminhar com passos firmes, demonstrando raiva. Alcançou Navere e começaram a conversar em voz baixa.  Os outros permaneceram em silêncio por algum tempo, até que Askáth gritou mais uma vez, agora, com Navere. “EU NÃO QUERO SABER! A CULPA FOI DESSE HALFLING!”.
Mais algumas frases inaudíveis e foi a vez de Navere se exaltar. “VOCÊ ACHA QUE EU NÃO SEI DISSO? E SIANA? PERDEMOS SIANA, E AGORA ELA ESTÁ MORTA!”
Thaal olhou para Phidain, que apertou os olhos e abaixou a cabeça.
“Acho melhor deixarmos o resto da conversa para amanhã. Você vai ter que seguir conosco. É o mínimo que pode fazer para pagar suas dívidas com Navere. E Desmond, quando o encontrarmos. ”, disse Thaal.
“Foi para isso que vim até aqui”, respondeu Phidain, humildemente.
Deitaram em seus sacos de dormir. Askáth e Navere continuaram conversando por meia hora depois que os outros já estavam deitados, e acabaram tomando o primeiro turno de vigia para si.  
Na manhã seguinte, o céu acinzentado os acordou com a parca luminosidade de Shadowfell. Enquanto eles juntavam os aparatos do acampamento, Phidain observava uma pequena pedra avermelhada que tirou do bolso.
“Temos mais muito tempo de viagem. Mais de dois meses.” Os três se entreolharam assustados com a previsão, mas não demonstraram verbalmente o espanto. “Vejo que suas provisões são escassas e de má qualidade. Não se preocupem, eu estou preparado. A seis horas daqui há uma cabana, com tudo o que precisamos para seguirmos viagem.”, anunciou Phidain.
“E como você sabe disso? Já veio aqui também?”, perguntou Askáth. “Parece que você está em todos os lugares, é uma coisa impressionante”. A voz do ladino soava sarcástica e seca.
“O suficiente. Precisamos estar bem preparados e descansados para o que virá pela frente.”
Nas horas seguintes seguiram pela estrada vazia e abandonada. Navere seguia sozinho, cabisbaixo, por último. Os poucos rastros que o grupo que levava Desmond havia deixado foram apagados por uma chuva fina e gelada que os acompanhou boa parte do caminho. O chão de terra preta com pedriscos esparsos se tornou uma lama espessa que engolia os passos deles com voracidade. A viagem até a cabana seria completada até metade do dia, mas acabaram alcançando-a apenas no começo da noite. A chuva já havia parado há algumas horas, mas o ar permanecia gelado e úmido.
Ao avistarem a cabana, depois de uma curva a mais ou menos meio quilômetro de distância, se surpreenderam com as luzes acesas do lado de dentro. A luminosidade era azulada, característica da iluminação mágica.
Alguns minutos depois, antes mesmo de tentarem alcançar a porta, esta se abriu espontaneamente.

“Oi, pessoal”, disse Siana. 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

50.000!

Não vou mentir e dizer que não achei que fosse conseguir. Eu sou teimosa que nem um bode e quando enfiei isso na cabeça eu não ia conseguir NÃO fazer.

Então, eu escrevi um livro. Contra todas as minhas crenças, consegui escrever algo maior do que um conto. Sinceramente, ainda não terminei. 50000 foi pouco e estou nos momentos finais, mas ainda não consegui concluir.

E isso é maravilhosamente ótimo. A ideia do NaNoWriMo não é que seja bom. É que seja feito. E foi.
Infelizmente não é publicável, não é bom e não é pra todo mundo (é feito grande parte de conteúdo gerado em situações muito estranhas), então minha conquista serviu para me provar que eu posso SIM desenvolver uma história longa, cheia de personagens, lugares, e... coisos (gastei o vocabulário todo, HAHAH).


Valeu pelo apoio, gente. Emoticon smile Sem vocês eu não teria conseguido, Pedro, Kiwi , Pada, Breno e Thadeu. 


30 – Apenas quatro

            Detrás da enorme figura vestida em armadura completa, saíram mais três humanoides. Um deles estava vestido com roupas de viagem, em tons vermelhos e marrons. Em seu peito, pendurado em uma tira de couro negro, exibia um pingente com a insígnia do Culto do Dragão. A cor das roupas era muito destoante do resto do ambiente, que parecia ter sido roubado de todas as cores exceto branco, negro e cinzento. Os outros dois, entretanto, vestiam-se com trapos decrépitos e restos de armaduras. Sob as roupas esfarrapadas, a carne deles estava ainda mais podre, acinzentada. Nas cabeças, cabelos negros e compridos muito embaraçados encimavam os rostos monstruosos como coroas. As órbitas, em vez de abrigar olhos, tinham apenas espaços vazios muito profundos.
            “Ora ora, que encontramos aqui!”, disse o cultista. Era um elfo, diferente da maioria dos outros cultistas que tinham encontrado. Em suas costas, uma aljava grande carregava dezenas de flechas com penas negras e suas mãos levantavam um arco armado na direção deles; a flecha estava posicionada, mas ele ainda não puxava o cordão. “Vejam, vejam! O pedaço que faltava daqueles nojentos!”, falou, olhando diretamente para Desmond.
            Desmond observava de olhos arregalados. Askáth, Navere, Thaal e Randal estavam com muito medo, mas o ladino experiente parecia compreender com mais clareza o que significava a presença daqueles membros do culto naquele lugar. Askáth e Navere sacaram as adagas e apontaram para os intrusos. O cultista e os mortos vivos não esboçaram reação.
            “E estes... são aqueles que também estavam atrapalhando tudo?”, falou um dos mortos vivos.
            “É... são aqueles que fizeram aquela desgraça no templo. Temos que levar todos.”, respondeu o outro.
            “Certo... vamos. O caminho é longo.”, disse o cultista, com um tom autoritário e definitivo.
            “Eu me rendo.”, disse Desmond, em voz baixa.
            “O que disse, ladrãozinho?”, perguntou o primeiro morto vivo, com os dentes apodrecidos e pontudos se expondo sob um sorriso maligno.
            “EU ME RENDO!”, repetiu o ladino, gritando.
            “Mas você não entendeu... não é uma opção sua. Nós estamos levando vocês de qualquer jeito, há há há há...”
            “Eu sei que vocês precisam de mim vivo”, disse Desmond. Rapidamente sacando uma das adagas de sua cintura, levou-a à própria garganta. “Eu posso acabar com isso agora mesmo e vocês não vão poder me sacrificar... e eu sei o quanto sou valioso para vocês. Afinal, sou Amlugnehtar, matador de dragões, aquele que impediu Tiamat de retornar”
            Os três membros do culto ficaram muito surpresos e não foram capazes de falar nada. A figura gigantesca de armadura estava tão imóvel que nem movimentos de inspiração e expiração eram perceptíveis sob o peitoral da armadura.
            “Eu vou com vocês, sem lutar.”, continuou Desmond, “ se vocês os deixarem ir embora.”
            “Desmond, Desmond... você é tão engraçado!”, disse um dos mortos vivos. “Acha mesmo que você vale tanto assim para nós? Você é apenas carne!”
            “Não, Desmond! Não faça isso!”, alarmou-se Thaal.
            “A escolha é de vocês”, respondeu Desmond, enfiando a ponta da adaga na carne macia de seu pescoço, fazendo com que um filete de sangue escorresse e alcançasse sua camisa.”
            “Não!”, gritou o cultista elfo, interrompendo o movimento da mão de Desmond, que já iniciava o alargamento do ferimento. O arqueiro profano pareceu legitimamente preocupado com a segurança de Desmond. “Está certo. Vamos embora. Seus amigos podem ficar aqui.”
            Sem mais palavra, Desmond deixou que amarras mágicas fossem envolvidas ao redor de seu corpo. A corda dourada brilhava pouco naquele ambiente escuro, mas não havia dúvida de que ele não seria capaz de escapar. As amarras encantadas só soltariam se aquele que as amarrou permitisse.
            Enquanto a enorme figura de armadura o levantava de forma bruta pelas amarras, os companheiros de Desmond permaneciam desconcertados, incapazes de proferir palavra. Desmond olhou para trás mais uma vez, enquanto os mortos vivos o empurravam para fora da casa. O cultista seguia atrás, ainda com o arco empunhado. Virou-se e dirigiu-lhes a palavra. 
            “Vocês valem muito pouco. Levar vocês através do continente custaria muito mais do que vocês poderiam oferecer de sangue para o Culto. Shadowfell fará com que vocês tenham o destino que merecem depois do que fizeram para nós. ”, disse. “Espero que vocês tentem nos seguir. Vai ser muito engraçado poder observar vocês morrendo. ”
            “Vamos apostar? Eu acho que será de fome”, falou o morto vivo que segurava Desmond pelos cabelos, em tom de desdém.
            “Pois eu acho que eles serão comidos vivos por uma horda de mortos vivos. Há há há há!”, respondeu o outro. A risada sobrenatural que ecoou da garganta apodrecida enrijeceu os pelos do corpo de todos eles.
            Os dois terminaram de levar Desmond para fora. O ladino não lutava, mas relutava em cooperar, e seguia lentamente, recebendo tapas periódicos dos lacaios mortos para que continuasse a andar. O elfo seguia de perto, pronto para agir a qualquer momento. Randal caminhou até a porta da construção, encostou-se no batente e observou os dois magos e a criatura humanoide gigantesca levando Desmond até a curva na estrada que passava pelo vilarejo. Seguiram numa direção que os cinco haviam descartado quando escolheram o caminho anteriormente. Durante todo o tempo em que os observou, Randal não viu o elfo abaixar o arco em nenhum momento.
            “E quando vamos iniciar a viagem? ”, disse Askáth, quebrando o silêncio. O tom casual de sua voz não conseguiu mascarar o verdadeiro desespero que crescia em seu peito.
            “Assim que terminarmos de olhar o que temos por aqui”, respondeu Thaal, curiosamente interessado em resgatar objetos daquele ambiente. Ele soava mais calmo do que Askáth, mas o ladino suspeitava que era apenas autocontrole, não frieza ou falta de compreensão.  “Não podemos dar a eles o gosto de morrermos tentando. Temos que conseguir encontrar Desmond e os Amlugnehtar. ”
            “E Siana. ”, lembrou Randal.
            “E Phidain. ”, acrescentou Navere. “Nem que seja para esclarecermos isso tudo de uma vez por todas. ”
            Por mais alguns minutos, reviraram todos os armários e baús daquele pequeno quartel. Encontraram, no que parecia ser um refeitório antigo, barris com carne seca e queijos com uma aparência péssima, mofada e muito antiga. Guardaram o achado como quem guarda pedras preciosas. Entre os quatro, calcularam que a quantidade de comida, se racionada, poderia durar até dois meses. De um armário, recuperaram uma espada suja que parecia um pouco melhor do que a arma que Randal utilizava, uma lança, algumas mochilas e sacos de dormir. Uma pilha de cobertores cinzentos úmidos foi desfeita e cada um deles enrolou uma coberta e a colocou sobre a mochila, prendendo com cordas antigas e desfiadas que estavam embaraçadas na parte de baixo do armário. Alguns outros equipamentos de viagem e exploração puderam ser aproveitados e foram amontoados nas mochilas. Todas elas fediam a queijo velho. Saíram do quartel e encheram os cantis em um poço de água muito suja do lado de fora.

            “Eu tenho que admitir. Estou com medo.”, disse Randal.
            “Eu também. Mas não temos escolha. Podemos morrer aqui, ou podemos morrer tentando. Acho importante que não nos enganemos. Não vamos sair dessa vivos”, falou Navere, firmemente, mas sem esperança.
            “Pois eu acho que vamos sair vivos. Temos que tentar, temos que resgatá-los. E nós vamos nos manter respirando e inteiros.”, afirmou Thaal, demonstrando segurança.
            A firmeza de Thaal pareceu reassegurá-los. Entre eles, carregavam mais de cinquenta quilos de queijos em peças redondas enegrecidas e pedaços retangulares de carne seca mofada. Além disso, todo o equipamento que resgataram e a água faziam com que cada mochila pesasse mais de vinte quilos. Askáth estava com dificuldade para mantê-la nas costas, mas Thaal tomou um pouco do peso da mochila dele para si, deixando a bagagem do tiefling um pouco mais suportável para ele. Askáth não pôde esconder a surpresa em seus olhos. Thaal apenas respondeu com um sorriso. Puseram-se a caminhar cerca de quarenta minutos da saída dos cultistas com Desmond.
            A estrada era extremamente malcuidada e não parecia ser utilizada nunca, então o grupo que seguia na frente produzia muitos rastros, fáceis de serem localizados por Askáth. Além disso, eles suspeitavam que os cultistas não estavam tentando esconder seu caminho. Chegaram à conclusão que eles pareciam querer que fossem seguidos por eles, provavelmente para ver o grupo inexperiente morrer.
            Durante dois dias e meio de viagem, eles não encontraram ninguém. Na metade do segundo dia, foram descobertos pelo que pareceu uma procissão de clérigos mortos vivos que transitava perpendicularmente à estrada que seguiam. Os quatro se puseram em posição de ataque, mas a procissão cadavérica apenas cruzou o caminho deles, produzindo um cântico quase inaudível por entre as mandíbulas expostas. Os corpos estavam cobertos por robes negros velhíssimos e eles seguiam em fila, com os passos coordenados. Eram mais de cinquenta.
            Durante o primeiro dia haviam acelerado o ritmo para que diminuíssem a distância entre eles e Desmond. Ao acamparem na primeira noite, já conseguiam avistar a pequena fogueira que os sequestradores do ladino tinham produzido. Agora, três dias depois, a planície permitia calcularem com segurança que estavam a cerca de três quilômetros de distância dos cultistas.
            A própria fogueira que acendiam era pobre, pequena, como se o ambiente não permitisse que grandes fogueiras fossem produzidas. Eles tinham criado o hábito de tentarem se esconder dos cultistas. Hoje, por causa da extensão da planície descampada onde estavam, conseguiram apenas se entrincheirarem em uma pequena irregularidade na estrada, acentuada por um buraco raso que cavaram assim que a noite caiu.  O calor produzido pela fogueira era insuficiente, e apenas conseguiram esquentar a comida o bastante para tentarem matar os fungos que haviam sobre o queijo e a carne.
            A magreza deles era flagrante e progressiva. Askáth já exibia grandes covas nas bochechas e a largura dos ombros de Randal se reduzia a olhos vistos.
            Enquanto conversavam em voz baixa, tentavam impedir o vento gelado e úmido de apagar a fogueira minguante.
            Askáth, ao olhar para a estrada, teve a impressão de ver alguém caminhando ao longe, na direção de onde vieram. Alertou os outros, que pararam de falar e começaram a observar. Ao longe, a figura era pouco mais de uma silhueta. Após alguns minutos, os passos da pessoa já eram audíveis, ritmados, mas sem pressa. Mais alguns minutos e a figura mostrou-se diminuta, menor do que um humano médio. Dez minutos depois, a luz da lua minguante alaranjada, somada à visão noturna deles e à fogueira fraca revelou o inesperado.
            A cerca de trinta metros, o halfling de feições conhecidas se aproximava cautelosamente, expondo as mãos vazias e o rosto pacífico.

            “Phidain.”, disse Navere. 

domingo, 29 de novembro de 2015

29 – Mais duas covas

Randal já estava há uma hora abraçado aos corpos inertes de sua esposa e filha. As lágrimas já haviam cessado, mas a expressão de desespero ainda permanecia estampada em seu rosto.
            Navere decidiu que não suportava mais aquilo.
            “Randal. Elas se foram. Precisamos ir embora.”, falou, abaixando-se e tocando no ombro de Randal.
            “Não vou deixá-las aqui”, respondeu o mercenário com a voz baixa e rouca. “É minha família.”
            “Nós sabemos, Randal. Mas... é muito perigoso ficar aqui.”, disse Askáth.
            “Não.”
            “E se nós fizéssemos um enterro digno para  elas?”, interrompeu Thaal.
            “Aqui? Nesse lugar infernal?”
            “Eu posso abençoar o solo aonde vamos colocá-las.”, disse Thaal.
            “Eu... acho que isso seria justo.”, Randal finalmente cedeu.
            Ele permaneceu ali, abraçado aos corpos decrépitos delas por mais alguns minutos, enquanto os outros abriam duas covas do lado de fora da casa. Utilizando paus e outros destroços encontrados nas outras construções, os outros quatro demoraram bastante tempo para conseguirem cavar fundo o suficiente.
            De uma das casas, Thaal resgatou dois lençóis que talvez tenham sido brancos um dia, mas atualmente estavam cobertos de fuligem e esburacados por traças. Ainda assim, foi o melhor que puderam fazer.
            Enquanto Navere, Askáth e Desmond terminavam as covas, Thaal ajudou Randal a se levantar. Deitaram os corpos no chão, ajeitando os cabelos e os farrapos de roupas. Estenderam os lençóis, acomodando as duas de forma a enrolar o lençol por todo o corpo. Por fim, antes de cobrirem os rostos, Thaal iniciou uma bênção em cada uma delas. Ele ajoelhou e começou a orar silenciosamente ao lado dos dois cadáveres.
            Navere entrou silenciosamente de volta na sala da casa de Randal. O bardo estava muito sujo de terra negra, que permanecia aderida à pele dele por causa da umidade do lugar.
            “Está pronto”, disse ele, baixa e respeitosamente.
            Thaal levantou a cabeça e acenou. Eles voltaram para dentro, tomaram os corpos nas mãos, Askáth e Desmond levando Lana e Navere e Thaal levando Sarah. Depositaram os dois cadáveres ao lado de cada uma das covas.
            Thaal iniciou: “Estas almas foram levadas de forma cruel e injusta. Que Torm abra as portas do paraíso para que elas possam viver eternamente em paz.”
            “Que elas possam desfrutar de dias quentes e fartura, pores do sol eternos e campos floridos onde se deitar”, continuou.
            “Que Torm e todos os outros deuses bondosos as acolham na vida eterna, onde aguardarão por Randal quando chegar a sua hora. Eu abençoo este solo que as receberá para o descanso eterno. Eu abençoo estas almas para que sigam em paz.”, disse ele.
            Randal caminhou até Lana. Pegou a ponta do lençol que ainda estava aberta, posicionada, e a colocou sobre o rosto da esposa morta. Tocou sua testa através do tecido. Levantou-se e fez o mesmo com a filha.
            Utilizando alguns trapos longos e pedaços de corda que recuperaram das casas, desceram cuidadosamente ambos os corpos para dentro das covas recém-cavadas. Enquanto Randal ainda observava em silêncio e Thaal permanecia rezando, Desmond, Askáth e Navere cobriram as covas com a terra que tinham tirado. Com longos pedaços de madeira marcaram as covas, deixando que os toscos marcadores guardassem apenas o primeiro nome de cada uma delas gravado na madeira.
            Randal parecia um pouco mais calmo e conseguiu se afastar das tumbas assim que Thaal o abraçou e caminhou lentamente para fora da cidade.
            Já estava anoitecendo e eles precisavam decidir o que fariam. Sentaram-se numa pequena clareira no bosque e acenderam uma fogueira.
            “Precisamos conversar friamente”, disse Desmond. “Eu só sei que estamos em Shadowfell e que meus amigos estão em um lugar chamado Evernight.”
            “Eu não sei nem o que você quer dizer com estamos em Shadowfell”, disse Askáth.
            “Shadowfell é como um espelho distorcido de Faerûn. Esta aqui é Hlath... ou a gêmea dela nesta dimensão profana. Não há como sair daqui... e eu não tenho ideia de como chegamos. Por isso, Randal...”, disse ele, inseguro e abaixando o tom da voz, como se falasse carregado de vergonha, “talvez aquelas nem fossem a sua Sarah e Lana.”
            Randal arregalou os olhos. Levantou-se de supetão, atravessou o círculo que tinham se posto e acertou Desmond com um soco muito forte no rosto.  “Você... me diz isso... AGORA???”
            “SE ACALME, RANDAL!”, gritou Desmond, limpando o sangue do canto da boca. “Eu não sei! Eu não sei de nada... o que sei que é que este é um lugar maldito e estamos absolutamente perdidos de termos vindo parar aqui.”
            “Se aquela não era minha família, Desmond... eu não sei como você pode ter sido cruel assim e ter deixado que eu passasse por tudo aquilo.”
            “Aquela ERA sua família! E não era... entende?”
            “Não.”, ele respondeu, tentando recuperar a calma.
            “Bem, não temos tempo para isso agora, já nos expusemos muito ficando aqui. Precisamos de abrigo.”, disse Desmond, atiçando o fogo com um graveto. A atmosfera gelada e úmida não ajudava a manter o fogo aceso e o corpo deles quente. Mesmo a uma distância muito pequena da fogueira, eles ainda continuavam com frio.
            “Acho que esta noite estamos presos aqui. E este lugar não parece nada seguro.”, disse Thaal.
            “Não parece porque não é mesmo.”, respondeu Navere. Em sua voz, a melancolia era flagrante. “Eu... não acho que tenha nada que possamos fazer. Vamos morrer aqui.”
            “Não, não vamos. Vamos agir e resolver essa encrenca”, respondeu Askáth, um pouco mais esperançoso.
            “Não vamos. Acho inclusive que eu deveria acabar com isso agora mesmo”, disse Navere, observando o brilho da fogueira na lâmina da adaga que tinha nas mãos.
            “Nem pense nisso!”, disse Thaal. “Vamos dormir. Em turnos. Eu fico no primeiro. Askáth, você fica comigo?”, perguntou ele.
            Askáth pareceu surpreso por ter sido o escolhido. Thaal não parecia se sentir à vontade com a presença dele até agora. Aceitou.
            O ladino e o clérigo não conversaram durante três das quatro horas da vigília. Na última, depois de ouvirem um barulho e não constatarem perigo após procurarem juntos, engataram uma conversa banal sobre o que fariam a partir dali.
            Randal demorou mais de uma hora, mas eventualmente a exaustão o levou ao sono. Desmond e Navere conseguiram dormir, embora várias vezes durante a vigília Thaal tinha flagrado Navere com os olhos abertos, fitando o céu do mais profundo negro.
            O céu daquele lugar não tinha estrelas. Um negro surreal permeava por entre as nuvens e a lua minguante alaranjada que estava perto do horizonte, atrás de névoa, não era capaz de oferecer nenhum tipo de iluminação natural.
            Askáth acordou Navere e Desmond. Concordaram em deixar Randal descansar; ele agora roncava ruidosamente e parecia precisar de mais descanso do que todos. O resto da noite passou-se com o silêncio pesando entre eles, sem nem que grilos fossem capazes de permear a atmosfera de desolação daquele lugar.
            Com a chegada da luz, perceberam que o clima nebuloso era provavelmente a constante. O sol não era capaz de atravessar as nuvens e não havia radiação atingindo o solo para que produzisse calor. Mais uma vez, o tempo era frio, úmido e insalubre.
            Escolheram uma direção. Decidiram em grupo que precisavam alcançar a cidade de Evernight, mas não tinham nenhuma indicação da direção para a qual seguirem.
            Quando a fome ficou forte demais, não sabiam o que comer. Tentaram procurar embaixo de pedras e buracos por pequenos animais, mas encontraram apenas vermes. Desistiram.
            Caminharam o dia todo, ultrapassando o vale, o rio lodoso, o bosque. Seguiram uma estrada com pavimentação precária. Do que parecia um dia ter sido uma estrada de cascalho, sobravam apenas pequenos pedriscos ocasionais, enterrados entre a lama negra do chão.
            Quando acamparam mais uma vez, a fome era quase insuportável. Os cantis que carregavam, que tinham levado para a curta expedição ao templo já estavam no fim, mesmo com o pesado racionamento que estavam fazendo.
            Naquela noite, enquanto Thaal, Randal e Askáth dormiam, Desmond e Navere caçaram vermes sob as pedras mais próximas do acampamento e os tostaram na fogueira. Os bichos sibilaram quando a água de dentro do corpo deles ferveu e secou, transformando-os em pequenos pedaços ressecados e queimados de carne. Engoliram-nos sem terem tempo nem energia para sentir nojo.
            Quando os acordaram, entregaram alguns vermes torrados a eles, que não questionaram e acabaram comendo também.
            A proteína dos vermes pareceu mantê-los vivos por tempo suficiente para seguirem viagem. Conseguiram alcançar um outro vilarejo mais para frente na estrada.
            Este parecia um pouco menos destruído do que o que se assemelhava à cidade de Hlath. Randal explicou que aquele poderia ser a duplicata da cidade vizinha a Hlath, e que se fosse, ele conheceria os lugares, quem sabe conseguiriam abrigo ou comida. Seguindo as instruções dadas por Randal, foram até o pequeno abrigo da guarda da cidade, onde, segundo o mercenário, haveria um mapa dos arredores.
            Ao entrarem, descobriram que o ambiente parecia quase bem cuidado, apesar de ainda carregar a atmosfera de perdição do que tinham visto até agora. Na parede, um mapa rabiscado em tinta negra era confuso e não parecia confiável, mas mesmo assim, Randal pegou-o, enrolou-o e guardou o pergaminho em sua mochila. Enquanto observavam os armários de armas da guarda, procurando algo que lhes fosse útil, ouviram passos. Atrás deles, o som inconfundível de alguém utilizando uma armadura completa caminhando lentamente denunciou que alguém se aproximava.

            Viraram as cabeças e encararam uma figura de mais de dois metros de altura, muito forte, que portava no peito sobre a armadura completa o símbolo do Culto do Dragão.

sábado, 28 de novembro de 2015

28 – A sombra mais escura

            O silêncio durou alguns segundos. Quando abriram os olhos, não esperavam enxergar o que viram. Os cinco trocaram olhares confusos. Estavam dispostos em círculo, como cinco pontas em um pentagrama imaginário, disposto no interior de um círculo físico. Este círculo era composto de runas brilhantes, muito bem desenhadas. Enquanto as observavam, as runas luminescentes perderam seu brilho azul gradativamente, até apagarem por completo.
            O ambiente ao redor do círculo era uma sala com paredes de pedra muito antigas. Não era uma construção grande, mas tinha em todas as paredes altíssimas estantes cheias de livros variados. O frio era quase palpável e em poucos minutos estavam todos com os dedos arroxeados e dormentes. Nas paredes haviam suportes com velas muito antigas, que Desmond se pôs a acender, uma por uma, começando pela vela em cima de uma superfície. Quando a última vela foi acesa, a sala inteira pareceu ganhar calor e luminosidade muito além do que as velas poderiam fornecer. A atmosfera parecia mágica e o ambiente se tornou agradável. Eles puderam observar com mais clareza o que parecia ser uma biblioteca. As estantes estavam cheias em cada espaço, e havia uma escrivaninha muito bonita e de ótima qualidade, com quatro gavetas. Em cima, papéis e pergaminhos estavam organizados num canto, com pena e tinteiro ao lado. Um carimbo e um pedaço de cera vermelha para selar estavam organizadamente colocados ao lado de uma das velas acesas por Desmond. A bela poltrona que acompanhava a mesa tinha veludo vermelho no estofado.
            Mais outras duas poltronas muito bonitas e confortáveis estavam colocadas nos cantos, perto das estantes. Uma grande escada estava apoiada em uma das estantes, de forma a permitir que os livros colocados em posições mais altas pudessem ser acessados com facilidade.
            “Onde estamos?”, Askáth finalmente teve coragem de perguntar. A pergunta pairava entre eles pelos últimos dez minutos, mas o choque do teleporte era tão grande que nenhum deles tinha tido a ousadia de colocar em palavras o medo e a dúvida.
            “Eu... não sei.” Desmond respondeu. Se o mais experiente deles não tinha ideia de onde estavam, os outros não tinham meios de saber.
            Enquanto Randal andava em círculos, Askáth e Desmond exploravam a sala por mais informações e segredos, Thaal e Navere se sentaram nas poltronas, e começaram a explorar os papéis, pergaminhos e livros.
            Nos pergaminhos, entre cartas indecifráveis e informações aparentemente irrelevantes, havia um nome, Evernight, uma data de dois dias atrás e um nome: Amlugnehtar.
            Navere, ainda segurando o pergaminho, chamou por Desmond. Ao ler, Desmond pareceu confuso.
            “Se foi para lá que os levaram, estamos perdidos... nunca ouvi falar neste lugar.”, disse ele, demonstrando perder as esperanças.
            A vela em cima da escrivaninha pareceu tremular. Eles guardaram este pergaminho e mais alguns outros dentro da bolsa. Durante todo o tempo, Desmond e Askáth tinham procurado uma saída da sala, sem sucesso. O círculo estava completamente inativo e nenhuma das tentativas deles fora produtiva.
            Navere exauriu seus olhos e sua mente. Viu que a vela em cima da escrivaninha estava quase no fim. Resolveu extingui-la, antes que eles ficassem sem luz. Apagou-a com um sopro, e instantaneamente a sala se tornou mais escura e mais fria, como se a magia que todas as velas acesas ao mesmo gerava tivesse sido interrompida.
            Na mesma hora, Desmond percebeu que um dos cantos da sala parecia particularmente escuro, desproporcionalmente à quantidade de luz produzida pelas velas que ainda rodeavam a sala. Mais ninguém pareceu perceber, e apenas viram Desmond se encaminhando a um canto e examinando uma sombra escura.
            Então, Desmond não estava mais lá. A olhos vistos o ladino tinha simplesmente desaparecido. Navere se levantou de súbito muito assustado, tentando achar o ladino.  Correu em direção ao canto onde Desmond havia estado.
            Navere também desapareceu. Askáth, Randal e Thaal ficaram ainda mais amedrontados e se aproximaram cautelosamente do canto escurecido. Um a um, desapareceram. Thaal foi o último. Quando se viu sozinho naquela biblioteca, não viu alternativa além de se embrenhar naquela sombra que parecia tão comum, na esperança de ser enviado ao mesmo lugar que todos os outros.
            Curiosamente, eles haviam sido levados para um lugar exatamente igual ao que estavam antes, com apenas uma diferença: Os livros tinham todos capas negras, as estantes estavam cobertas de teias de aranha e a escrivaninha decrépita. A escada apoiada nas estantes era feita de madeira negra, retorcida, e não transmitia segurança. As velas nas paredes estavam cobertas de pó e não eram acesas há muito tempo. O frio era cortante como antes, mas desta vez, a umidade do ar era flagrante, causando uma sensação única nos cabelos e pelos do corpo. Apesar de tudo isso, a diferença fundamental desta sala para a anterior era que esta tinha uma porta, ladeada por duas estantes negras.  
            Sem compreender o que tinha acontecido, eles começaram a acender as velas que acreditavam serem as mesmas.
            Cada uma que acendiam permanecia acesa apenas até que a próxima recebesse fogo. Desta forma, além de não produzirem o efeito mágico presente na outra sala, apenas exercitavam a futilidade de tentarem se aquecer.
            Os papéis e livros se mostraram absolutamente inúteis. A escrita, quando presente, era ilegível ou sem sentido. A maioria dos papéis havia sido consumida por fungos e traças.
             Em um acordo silencioso feito após a inspeção do lugar, Desmond se encaminhou para a porta. Para a surpresa de todos, ela estava destrancada e se abriu com facilidade. No momento em que a primeira fresta foi aberta, um vento gélido, cortante e úmido invadiu o ambiente e os surpreendeu. Terminaram de abrir e viram que a porta dava acesso a um corredor que mais parecia uma varanda. À frente deles, em vez de paredes, o corredor tinha uma grade de ferro muito antiga, de linhas retas. Várias falhas davam à estrutura uma aparência muito insegura.
            Eles saíram da sala e se enfileiraram no corredor, observando estarrecidos a paisagem.
            Estavam em um lugar muito alto, como uma torre. A visão do terraço era de muito longo alcance e o relevo era muito familiar e alienígena ao mesmo tempo. O que parecia ser a cidade de Randal,  Hlath, estava à frente, com as montanhas que ficavam atrás dela posicionadas exatamente como o esperado. O rio que cortava aquele vale também estava lá, assim como o bosque. Apesar disso, era o máximo de reconhecimento possível.
            O céu era cinza escuro, como se uma tempestade se formasse cobrindo cada centímetro da abóbada celeste. Não havia grama verde nem cobrindo as colinas. Àquela altura, não era possível discernir com clareza as características do terreno. O chão era negro, parecendo ser coberto por grama morta e cinzas. As casas, em vez de construídas, se assemelhavam ao estado em que a cidade tinha ficado após a destruição durante o ataque de Iljak. Todas as paredes e telhados das casas eram de madeira negra, como após um incêndio. As ruas eram tortuosas, diferentes das bem ordenadas de Hlath. Não haviam árvores vivas no bosque, na cidade ou em nenhuma outra região visível. As montanhas, outrora verdejantes com os topos cobertos de neve perene, agora eram enormes estruturas negras, pontudas e irregulares como rocha vulcânica. O rio tinha água, mas era lodosa e de aparência muito insalubre. Todo o ambiente parecia uma versão corrompida do que conheciam de Hlath e a região.
            Randal observava com os olhos marejados. Acreditava que aquele era seu lar e que havia sido levado pela desolação. As lágrimas escorreram e ele não manifestou intenção de limpá-las.
            “Randal... acho que esta não é a sua cidade.”, disse Desmond, inseguro.
            “Como você pode dizer isso? Veja... aquela ali era minha casa.”
            “Todo o resto está mudado, Randal. Eu... eu acho que sei onde estamos.”
            Todos olharam para Desmond, esperando clarificação. A sensação era de desespero. O vento frio e úmido colava os cabelos deles às frontes. Onde as mechas umedecidas tocavam, sentiam a pele ficar ainda mais gelada.
            “Não. Eu preciso ter certeza. Vamos descer lá”, disse Desmond, decidido.         
            Eles não perguntaram mais. Preferiam que Desmond respondesse quando realmente estivesse certo do que estava acontecendo e para onde eles tinham sido levados.
            Seguindo a varanda da torre, encontraram uma escada que os levava diretamente para baixo. A torre não parecia mais do que um observatório e não tinha outras salas interessantes ou fechadas.
            Quando alcançaram o solo, perceberam que ele era negro por ser coberto por carvão, pedriscos, ossos e teia de aranha. Não havia vegetação visível, insetos, animais nem nada parecido.
            Andaram por mais de meia hora até alcançarem a entrada da cidade que se assemelhava a Hlath. Não viram movimento algum, não havia nenhuma indicação de que havia vida naquele lugar. Randal caminhava cautelosamente, investigando as casas mais ou menos da mesma forma que as investigara após o ataque. Todas as casas estavam vazias. Seus interiores pareciam reflexos das casas de Hlath, mas com móveis queimados, quebrados ou reduzidos a pó. No chão, em duas casas, haviam esqueletos.
            Em alguns minutos, alcançaram a casa do mercenário. Ele hesitou, compreensivelmente, antes de abrir a porta. Askáth deu um passo à frente e tocou as costas do amigo em sinal de apoio. Ele olhou para o ladino e finalmente estendeu a mão para a fechadura da porta.
            Ao observar o interior da casa, seus pesadelos mais cruéis se tornaram realidade. Lana, sua esposa estava sentada em uma cadeira, de mãos dadas com sua filha Sarah. Os corpos delas estavam parcialmente decompostos, sua carne embranquecida marcada por ferimentos, queimaduras. Haviam ossos expostos, pedaços de cabelo faltantes. Ambas haviam morrido fitando o teto, com seus olhos enevoados vidrados e paralisados no tempo.
            Randal se aproximou delas, ajoelhou-se no chão e gritou, liberando toda a força do pesar em seus pulmões. O silêncio pareceu ainda mais pesado quando o ar terminou e ele se calou.
            Lana abriu os olhos. Sarah a seguiu, e ambas levantaram as cabeças. Randal não percebeu.
            Lana gritou, produzindo um som profano, sobrenatural e bizarro. Levantou a mão que estava solta e golpeou Randal na lateral da cabeça. Ele caiu para o lado, com os olhos muito arregalados. Sarah soltou-se da mão da mãe, abriu a boca e expôs dentes muito afiados, apodrecidos. Agarrou o pai pelo pescoço e mordeu a carne acima de sua clavícula. Sangue escorreu pelos lados da mordida.
            Desmond agiu rápido, atirando uma adaga no centro da testa de Sarah, fazendo-a soltar a mordida e pender para a frente inerte, com a cabeça ainda sobre Randal. Thaal produziu uma forte luz com as mãos que atingiu Lana no centro do peito, causando queimaduras que fizeram sua carne sibilar em protesto. Ela gritou mais uma vez, teve movimentos convulsivos e parou de se mexer, ainda sentada na cadeira. Randal cobriu o ferimento no ombro com a mão, soluçando e gritando. Thaal correu até ele e o auxiliou, utilizando as mãos para estancar o sangramento.

            Enquanto Thaal curava Randal com uma fraca luz que vinha das mãos, Desmond finalmente falou com um pesar imenso na voz:

 “Estamos em Shadowfell”.